top of page

VLT ou monotrilho? Especialista explica diferenças entre modais que podem ser implementados

Apresentado como VLT, a obra que deve substituir o trem do Subúrbio está proposta como um monotrilho; diferenças entre modais impactam em valor investido, acessibilidade e paisagismo. Por Juana Castro


Publicado no AratuOn

Foto: Sobre as vigas de concreto, este modal se caracteriza como um monotrilho | divulgação

O projeto do VLT de Salvador, anunciado para substituir o trem do Subúrbio Ferroviário, está em análise do Tribunal de Contas do Estado (TCE), com possibilidade de anulação do contrato já firmado do governo da Bahia com a concessionária Metrogeen Skyrail para a construção. Isso porque foram encontradas algumas irregularidades na proposta, inclusive em relação ao tipo de modal. Apresentado como VLT, se executada como proposta, a obra será um monotrilho.


As diferenças entre os modais impactam, dentre outros pontos, no valor investido. Para entender melhor sobre o assunto e suas implicações, Aratu On entrevistou o coordenador do Observatório da Mobilidade Urbana de Salvador (ObMob), Daniel Caribé. A instituição pesquisa sobre transporte e segurança na capital baiana. Sem hesitar, ele afirma que considera o Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, a melhor opção para a capital baiana, por motivos como acessibilidade e impactos paisagístico e cultural.


MONOTRILHO X VLT


Para a construção do monotrilho, Caribé explica que a obra demanda uma estrutura mais pesada, com vigas de concreto. Segundo o especialista, o modal inviabiliza qualquer integração com o sistema ferroviário convencional, enquanto o VLT abre a possibilidade de compartilhar a malha ferroviária, com trem de passageiros e de carga.


O monotrilho ficaria no alto, sobre as vigas de concreto. Logo, demandaria a construção de escadas ou outras formas de acessá-lo, impactando na acessibilidade para pessoas com deficiência (PCD’s) e com dificuldade de locomoção, a exemplo de crianças e idosos. O VLT, em contrapartida, teria estrutura mais semelhante aos antigos trens do Subúrbio.


Para o especialista em mobilidade urbana, a instalação de um VLT que permita o compartilhamento da infraestrutura com o trem preserva a identidade do Subúrbio Ferroviário e a história do local, considerando que a região foi produzida e constituída pelos moradores a partir da chegada do trem, há 161 anos. O modal foi desativado em 2021. O VLT, diz Caribé, poderia ser usado também para o transporte de cargas.


Imagem: reprodução/Parecer do MPC

A vocação portuária de Salvador também seria preservada, segundo o especialista. Além disso, permitiria uma expansão futura e necessária da malha ferroviária brasileira, conectando Salvador, de novo, ao Recôncavo Baiano, à Chapada Diamantina e à Feira de Santana. Até uma conexão entre a capital baiana com o restante do Nordeste e, quiçá, Norte do país, com a malha rodoviária, voltaria à pauta.


MALHA FERROVIÁRIA E CONEXÕES


Caribé ressalta a dependência do Brasil do transporte por caminhão, enquanto outros países discutem soluções mais sustentáveis. “É um meio muito poluente, além de perigoso e, de certa forma, até caro, por conta da manutenção de toda a infraestrutura rodoviária”, diz o coordenador do Observatório da Mobilidade Urbana de Salvador.


O trem, apesar de não ser um meio de transporte novo, é mais sustentável, do ponto de vista ambiental, e uma alternativa consolidada em todo o mundo, segundo Caribé. “Na França, por exemplo, o trem tem substituído as viagens curtas de avião”.


O especialista entende que a partir do momento em que o governo do estado retira a infraestrutura ferroviária de Salvador, vai na contramão do debate da transição da matriz energética e de reconstrução da malha ferroviária. “Claro que deveria ser um trem modernizado, revitalizado e requalificado, mas melhor aquele que não ter nada, como é hoje”.


QUANTO CUSTA?


Segundo Daniel, é difícil mensurar, sem estudos prévios, qual seria o modal com instalação mais cara, porém, a manutenção do VLT sairia mais barata que o monotrilho, por se tratar de uma tecnologia utilizada no mundo todo. “São dezenas de fabricantes em todo o planeta, então não há uma dependência tecnológica, enquanto cada modelo de monotrilho é restrito a um produtor”. Segundo Caribé, se a escolha fosse pelo monotrilho em Salvador, caso a empresa ou consórcio falisse, o problema seria mais grave na necessidade de algum conserto. Por se tratar de um meio de transporte relativamente novo, também é difícil precisar o investimento, de acordo com o especialista.


E O BOLSO DO PASSAGEIRO?


Independente do modelo a ser implementado, o valor da tarifa dependerá mais da forma com a qual o contrato será feito, explica Caribé. “Qualquer transporte de qualidade, no mundo, hoje, é altamente subsidiado pelos poderes públicos”. A título de exemplo, o especialista afirma que, se o metrô fosse inteiramente custeado pelo pagamento das tarifas, o valor para o usuário poderia ser até o dobro. “Nem o monotrilho, nem o VLT, nem os ônibus se sustentarão exclusivamente por meio da tarifa arrecadada”, afirma o especialista. Para ele, é preciso pensar em sistemas de transporte com outros formatos.

Comments


bottom of page