Um pingo de sensatez

Ilusório pensar que a Ilha possa ser uma opção habitacional para Salvador, quando o emprego está a mais de 70 km, em Camaçari, Candeias e São Francisco do Conde, e dependente de uma ponte móvel. Por Paulo Ormindo

Publicado no Jornal A Tarde (12/05/12) e disponível no site do autor.


Informar corretamente deve ser a principal preocupação de um periodista que não quer se desmoralizar. Por isso volto a um tema velho, de fin de siècle, requentado neste fim de mandato. Em primeiro lugar, é preciso dizer que a ponte de Itaparica não trará nenhum beneficio ao Recôncavo e à RMS, nem substituirá, como no Rio, as barcas. Olimpicamente ela dará um salto da Soledade para a Costa do Dendê marginalizando uma das microrregiões mais deprimidas do Estado embora com enorme potencial turístico, o Recôncavo. É inverídica a informação que a Envolvente de Kirimorê irá destruir manguezais e atropelar cidades históricas como Cachoeira e São Felix. Esta via, ou bem passaria a 40 km do litoral, ou pelos manguezais da baia.

Nem uma coisa nem outra, a Envolvente deverá passar a cerca de três quilômetros do litoral, como a Estrada do Coco e a Linha Verde, trazendo e levando cargas entre o porto de Aratu e indústrias da RMS e o interior do estado e o sul do país, sem passar por dentro de Salvador, ao tempo que servirá de acesso ás praias e a cidades históricas do Recôncavo, como São Francisco do Conde, Santo Amaro, Cachoeira, Maragogipe e Itaparica. Ela reduzirá também em 160 km, ou duas horas de carro, o acesso à Costa do Dendê e do Cacau. A ponte, sim, enfartará Itaparica, Vera Cruz e Salvador com uma carreata de 140 mil caminhões, caçambas, ônibus e carros diários em direção ao Litoral Norte, ao Copec, à Ford, a Sergipe e ao Nordeste, vindos dos Sudeste pelas BR-101 e BR-116.

Ilusório pensar que a Ilha possa ser uma opção habitacional para Salvador, quando o emprego está a mais de 70 km, em Camaçari, Candeias e São Francisco do Conde, e dependente de uma ponte móvel. a associação estNem será tampouco um balneário para gente velha, numa ilha sem praias livres e vida cultural. Em artigo neste jornal de 3 do corrente, Bernado Chezzi, consultor-jurídico da Ademi sinalsa que o setor está mais interessado na RMS que na ilha. taparica será no máximo um porto seco de containers e um pouso de caminheiros, como São Gonçalo, vizinho a Niterói.

Inverídica é também a informação de que em 2010, quando o Estado lançou o Procedimento de Manifestação de Interesse qualquer um poderia apresentar alternativas, porque o edital era para a construção e exploração da ponte. Naquele momento a decisão já estava tomada e a Via Expressa, seu acesso, sendo construída. Impossível ignorar uma estrada envolvente da baia que fazia parte do plano-diretor do Centro Industrial de Aratu, da década de 1960, como a via natural de articulação do CIA com a Refinaria Landulfo Alves, o Temadre e outros núcleos industriais. Integrava aquela proposta, de autoria do Arq. Sergio Bernardes, também a ponte de Itaparica, cujo projeto, por ser o mais apetitoso, foi desenvolvido e oferecido ao Estado por uma empreiteira local,.

A Manifestação de Interesse seria para que o vencedor realiza-se os estudos como parte da contrapartida de sua exploração. Mas o que se está vendo é o Estado bancando tais estudos no valor de R$ 90 milhões e iniciando as obras, estimadas em sete bilhões, sem nenhuma contrapartida. Pergunta-se: o que ganhou o Estado com a PMI? Este procedimento já é a concessão de sua exploração, sem licitação? Ou vamos ter mais uma PPP assimétrica como a da Arena Itaipava, agora multiplicada por dez ou vinte, num estado que tem dificuldade de pagar professores e policiais?

Dante da marola da crise econômica mundial e desinteresse do setor privado, sua realização é improvável no prazo anunciado. Como dizia um velho engenheiro fiscal: construção do governo só tem orçamento e prazo para começar. Obras de Santa Engrácia são o filé mignon das empreiteiras. Levi Vasconcelos em sua coluna Tempo Presente comentava em 24/04: “a Prefeitura de Salvador passou para governo uma dívida de R$130 milhões com as construtoras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez (...)As duas empresas vão receber o dinheiro, mas não bateram um prego por conta dele (...) Simplesmente é o preço pelas sucessivas paralizações”(...). Imaginem o montante no caso da ponte.