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Mobilidade urbana é um problema das grandes cidades, aponta Muller

Secretário apontou dificuldades enfrentadas pelos municípios na oferta do transporte público. Por Eduardo Tito


Publicado no A Tarde

Secretário de Mobilidade Urbana de Salvador, Fabrizzio Muller - Foto: Margarida Neide | Ag. A TARDE

Com o avanço da expectativa de vida do ser humano, a população nas grandes metrópoles têm crescido cada vez mais causando grandes desafios para os gestores.


Com seus quase 3 milhões de habitantes, Salvador viu um crescimento, para além de populacional, da utilização de sua malha urbana com um salto de 370 mil para 1 milhão de veículos, de acordo com dados da Secretaria de Mobilidade Urbana (SEMOB), trafegam do pelas vias da cidade nos últimos 20 anos.


A partir desse crescimento, que traz grandes dificuldades para a mobilidade urbana em todo o Brasil, Salvador segue buscando um modelo sustentável de oferta de transporte público.

O Plano de Mobilidade Urbana, coordenado pela SEMOB, busca traçar políticas públicas para os próximos 32 anos tratando de aspectos de macro e micro acessibilidade para pedestres, ciclistas, circulação viária, segurança viária e principalmente transporte coletivo.

A TARDE conversou com o secretário de Mobilidade Urbana de Salvador, Fabrizzio Muller, que explicou o que tem sido feito pela gestão municipal para destravar a capital baiana.


Mobilidade sustentável


Muller pontuou que a principal engrenagem da mobilidade para as grandes cidades do mundo passa pelo transporte público de qualidade. Segundo o secretário, Salvador está entre as cinco cidades brasileiras que fazem parte do programa Mobilidade Sustentável, de iniciativa do governo da Alemanha. Além da capital baiana, apenas Campinas, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo integram o programa.


Um dos projetos de mobilidade sustentável adotados pela prefeitura foi o Ônibus de Trânsito Rápido, mais conhecido como Bus Rapid Transit, o BRT de Salvador. A previsão é que o sistema opere em 13 linhas 100% em vias exclusivas para ônibus.


De acordo com Fabrizzio Muller, as obras já estão avançadas no trecho 2 que liga o Parque da Cidade Jardim até a Estação da Lapa com previsão de conclusão até o final deste ano de 2023. O BRT já conta com um trecho em funcionamento que sai da Rodoviária até a Pituba por uma faixa exclusiva.


"Bom, na verdade as obras do BRT, no trecho que vai do parque da Cidade Jardim passando pela Juracy Magalhães, Lucaia, Vasco da Gama, rotatória dos Barris, chegando finalmente na Estação da Lapa, estão bastante avançadas e em ritmo acelerado. E segundo a Superintendência de Obras Públicas do Salvador (SUCOP), a gente pode concluir todas essas obras ainda no final deste ano", projetou.


A SEMOB entregou uma nova etapa do modal com a inauguração da linha da Pituba que vai da Rodoviária até a Orla por uma canaleta chamada de linha estendida, onde o usuário pode entrar no sistema do BRT mesmo estando fora da canaleta. Os veículos contêm portas de acesso dos dois lados. A porta da esquerda embarca na estação e a porta da direita embarca em um ponto comum.


Com uma média de usuários de 17 mil passageiros por dia útil, o BRT opera com o sistema integrado de passagens com metrô de Salvador e a frota comum de ônibus.


"O que a gente percebe é uma aceitação enorme da população que ficou muito satisfeita. A gente tinha um mantra aqui antes de inaugurar essa primeira linha, que se o usuário entrar na estação esperando o BRT, estiver no transporte BRT e tiver a percepção de que ele está num sistema de transporte convencional, nós falhamos. Então, a gente tem que oferecer tudo que a gente pode de melhor para o usuário para que ele tenha uma percepção de transporte diferente. Desde a segurança e limpeza de uma estação, ao atendimento, o acolhimento dos funcionários, até o próprio transporte propriamente dito.


Salvador iniciou a sua transição para eletromobilidade. Já pintou ônibus elétrico no BRT e isso tudo tem trazido uma nova percepção realmente diferente para o cidadão, que tem aprovado. De vez em quando eu uso o BRT para ter essa percepção. E quando você oferece algo diferente, até o comportamento da população é diferente", destacou Muller.

É pensando na sustentabilidade que o sistema do BRT, segundo Muller, será contemplado com um eletroterminal que será construído ao lado da estação do BRT da Rodoviária e permitirá as recargas dos veículos que operam no sistema.


"Uma das coisas que a gente tem se esforçado muito é exatamente na transição para a eletromobilidade. A gente sabe que o transporte é um dos grandes poluidores do ambiente e a gente saiu na frente das cidades brasileiras. Os oito ônibus que estão rodando são 100% elétricos. Temos uma meta de um terço da frota do BRT, o que seria em torno de 59 a 60 ônibus, ser elétrico. Temos linhas em execução do primeiro terminal elétrico de recarga para os ônibus, que será o maior do Brasil. Isso é um investimento 100% do município. Então a prefeitura tem investido e se esforçado muito no que pese toda essa crise do transporte", afirma Muller.


De acordo com Muller, nas duas últimas décadas, Salvador pulou de 370 mil para 1 milhão de carros circulando pelas ruas da cidade. Ele cita que a Prefeitura de Paris, mesmo tendo um transporte público de qualidade, tem adotado uma forte campanha para que os cidadãos usem bicicletas com o objetivo de tirar carros das ruas para tentar sanar os problemas com congestionamentos.


"Não conheço nenhuma grande cidade no mundo ou uma metrópole que não sofra de alguma forma com o trânsito, principalmente no horário de pico. Veja que Paris é uma cidade que tem o transporte público coletivo extremamente consolidado e passa por problemas. O metrô de São Paulo tem 46 anos e existem problemas", pontuou.

"Por mais que existam obras, mesmo com exemplos fantásticos da mudança na mobilidade como o mergulhão da Tancredo Neves. A gente evitava passar por e hoje eu transito por lá em horário de pico e tá fluindo".


"Nos últimos 10 anos identificamos e resolvemos gargalos de trânsito como no Subúrbio e em Cajazeiras que foram feitas ligações entre a 5 e a 10. Agora, seriam apenas as obras que vão resolver os problemas de trânsito numa cidade? Não! Existem soluções pontuais que precisam ser feitas. Mas o que melhora de forma consistente e macro é você investir no transporte público. Você tem que tirar o carro da rua. Nós temos um número em Salvador que é assustador. Se você pegar o número de veículos no ano de 2000, eram aproximadamente 370 mil veículos na cidade. Hoje passa de 1 milhão, 20 anos depois. Daqui a 20 anos a gente consegue pensar num crescimento igual a esse? Salvador comporta 3 milhões de carros? Ou a gente tem um sistema de transporte público eficiente que tire o carro da rua e seja atrativo para que as pessoas usem, ou as cidades no futuro vão parar", enfatiza o secretário.


Crise no transporte público


Principal gargalo do governo do prefeito Bruno Reis (União Brasil), o transporte público da capital passa por avaliação do reajuste tarifário dos ônibus do transporte público. O reajuste anual, que em 2022 foi anunciado em março, ainda não aconteceu neste ano e o valor da nova tarifa segue uma incógnita.


A expectativa é que o relatório, conduzido pela Agência Reguladora e Fiscalizadora dos Serviços Públicos de Salvador (Arsal), seja concluído ainda na primeira quinzena deste mês e que o anúncio da nova tarifa aconteça antes de maio.


“Diferente de um reajuste em que você pega a tarifa vigente e estabelece o aumento em razão da inflação, na revisão tarifária é diferente. Levanta todos os custos do sistema, faz as projeções de demanda (utilização da população), projeta frota, se aumenta, reduz ou fica como está. Planeja o custo do investimento, quantos ônibus o município irá comprar. Isso tudo reflete na tarifa”, detalhou sobre as influências para alteração do valor.


Em viagem a Brasília, o prefeito Bruno Reis (União Brasil) relatou a situação enfrentada com transporte público em Salvador e Fabrizzio apontou o que segundo ele, são medidas adotadas para amenizar o problema como um subsídio federal, incentivos fiscais para reduzir o custo de operação, linhas de crédito para aquisição de novos ônibus e investimentos em veículos elétricos.


"Interessante que o prefeito Bruno Reis tem sido convocado pela Frente Nacional dos Prefeitos quando o assunto é transporte. O prefeito acabou se envolvendo de forma muito intensa, desde o início da gestão dele, nos problemas dos transportes. Salvador sofreu muito com a crise na pandemia. Todos os estados sofreram, mas Salvador buscou algumas soluções inclusive do ponto de vista contratual para que a gente pudesse caminhar. Temos dificuldades porque o Brasil inteiro ainda sofre com esses efeitos. O prefeito foi buscar justamente sensibilizar o Governo Federal da necessidade de um apoio maior do Estado e da União aos municípios. No Chile, por exemplo, o governo federal é o responsável pelo transporte público. Em diversas cidades europeias é o governo federal que subsidia o transporte público", afirmou o secretário.


De acordo com o gestor da pasta, "a prefeitura fez o que cabia no sentido de desonerar o transporte público. Por exemplo, Salvador não cobre ISS das empresas. Se fosse cobrar ISS, iria para os custos da concessionária que iria para o custo da tarifa. Salvador não cobra mais a taxa de regulação, não cobra outorga, não cobra mais nada. Então, para que a gente tenha uma tarifa melhor, a gente precisa ter a desoneração total do diesel, porque o ICMS que tá embutido no diesel que os ônibus consomem quem paga é a população, não é a prefeitura e não é a concessionária. Se a gente tem aqui uma desoneração total do diesel que é utilizado em transporte público, isso reflete na tarifa. O ICMS vai para o Estado. É preciso que todos façam. Tem que ter a Prefeitura, Estado e União juntos para que a gente tenha um transporte público melhor", concluiu Fabrizzio Muller


De acordo com a SEMOB, a prefeitura investe na renovação parcial da frota que conta hoje com 1680 ônibus, renovando 30% dos veículos nos últimos 3 anos. O objetivo de contar com ônibus modernos e menos poluentes se baseia no Plano de Mitigação de Ações Climáticas previsto no Plano de Mobilidade Urbana. O secretário disse que têm recebido visitas de gestores de São Paulo, Recife e com agenda marcada com equipe de Cuiabá, para conhecer o modelo de gestão que a prefeitura está fazendo com os ônibus elétricos para levar esse modelo para suas cidades.

Ciclovias


A prefeitura de Paris anunciou um investimento de 250 milhões de euros (R$ 1,6 bi na moeda brasileira) em ciclovias para enfrentar os problemas de congestionamentos de carros na cidade. Em 2012, Salvador tinha quase 40 quilômetros de ciclovias. Atualmente a cidade já conta com aproximadamente 300 quilômetros de pista para ciclistas.


"Todas as obras já foram pensadas considerando segurança viária e considerando uma estrutura de ciclovias. Só que a gente sentiu a necessidade em 2021 de iniciar um trabalho e este trabalho está sendo financiado pelo governo britânico, através de uma iniciativa chamada UK PACT, Pacto da União do Reino Unido, que está financiando através do Banco Mundial um Plano Municipal Cicloviário. Esse plano faz um diagnóstico da nossa cidade e direciona o que a gente precisa fazer para chegar no objetivo de ser uma cidade altamente ciclável. A gente tem uma meta de ser a cidade mais ciclável do país e ter uma quantidade de ciclovia que passe dos 500 quilômetros. E isso está tudo desenhando nesse plano municipal que está com consulta pública aberta no site da SEMOB", disse Fabrizzio.


Salvador é uma cidade com problemas topográficos em alguns bairros da cidade que cresceram de forma desordenada criando vias apertadas e de difícil acesso e estruturas de passeios com sérios problemas de mobilidade. Fabrizzio aponta que é "um assunto até de microacessibilidade e micromobilidade". Ele ainda destaca que a prefeitura tem uma atenção nos novos projetos que pensam a cidade com menos carro e mais para pedestres com pisos compartilhados e reduções de velocidades. O gestor ainda falou da existência do programa Eu Curto Meu Passeio, que é um trabalho de vistoria, fiscalização e manutenção dos passeios realizados pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur).

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