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Má qualidade de calçadas desafia pedestres

Buracos, pedras soltas, pisos escorregadios e largura inadequada são alguns problemas dos passeios. Por Jane Fernandes


Publicado no A Tarde


Roselene Marques tem de ficar atenta aos buracos e desníveis - Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Buracos, pedras soltas, pisos escorregadios, largura inadequada, obstáculos diversos e ausência de rampa de acesso são alguns dos problemas facilmente encontrados nas calçadas de Salvador. O diagnóstico incluído no Plano de Mobilidade do Município considerou adequadas apenas 22,9% das calçadas avaliadas. Cinco anos após a aprovação do documento, a impressão de quem circula a pé pela cidade é de que pouca coisa mudou.

As calçadas ruins e o espaço reduzido no canteiro central são os motivos do pintor automotivo Péricles Antônio de Souza, 56 anos, utilizar a ciclovia da Suburbana na sua caminhada até o trabalho. Diariamente, ele percorre o trecho entre o Boiadeiro e a Baixa do Fiscal, na ida e no retorno do trabalho, gastando cerca de 30 minutos no percurso. Para ele, o ideal seria andar na margem esquerda da via (sentido Calçada), mas as condições do passeio não permitem.


Na manhã da última quinta-feira, ele falou com a reportagem nas imediações de um posto de gasolina, trecho no qual a calçada cheia de buracos, alguns bem grandes, fica ao lado de uma vala com cheiro ruim. Para evitar acidentes com ciclistas, ele sempre anda na contramão, assim pode sair da ciclovia quando uma bicicleta está vindo, mas conta que algumas pessoas pedalam do lado errado, o que aumenta o risco de problemas. Na avenida, a ciclovia é dividida pelo canteiro e sua direção segue o fluxi dos carros.


Atualmente, trabalhando na sondagem de solo de um terreno no Largo dos Mares, Gerson Costa de Matos, 56, também adota a caminhada para percorrer o trajeto da sua casa, no Lobato, até seu local de serviço. Como os postes centralizados deixam pouco espaço nas laterais do canteiro, ele também adota a ciclovia como caminho principal. Tanto Gerson quanto Péricles afirmam preferir o deslocamento a pé para fazer uma atividade física e preservar a saúde, mas acabam economizando dinheiro em consequência.


Embora as dificuldades para circulação a pé afetem mais os que usam a caminhada como principal meio de transporte, todos são pedestres em algum grau. É o caso da costureira Roselene Marques Conceição, 50, que vai de ônibus até o trabalho, mas caminha até o ponto de ônibus e raramente sai da área entre o final da Suburbana e o bairro da Calçada para fazer suas compras. Nesses momentos, ela prefere andar.


Sem avanço


“Quando você pensa em mobilidade, a primeira coisa que deve surgir é a calçada, porque assim que você sai de casa ou do seu edifício, para pegar um BRT, para pegar o metrô, você precisa da calçada. E elas praticamente não existem em Salvador”, avalia o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU-BA), Neilton Dórea.

Para Dórea, o padrão de largura nas calçadas é inadequado ao fluxo registrado na maioria das vias de Salvador. Ele ressalta que o problema é histórico, mas não tem visto sinais efetivos de mudança nos últimos anos, citando a ausência de preocupação com o pedestre nas recentes intervenções na região da Av. Tancredo Neves. “O BRT foi implantado e não tem lugar para pedestre, nem para atravessar. A pessoa precisa percorrer distâncias terríveis”, lamenta.


O presidente do CAU-BA discorda do modelo de responsabilidade adotado em Salvador, onde a implantação e manutenção das calçadas ficam a cargo do proprietário do imóvel. “Quando você anda na Paulista, tem um padrão, em Copacabana tem um padrão, e aqui não tem, é completamente aleatório, cada morador faz como quer. Tem calçada feita de cerâmica que não é antiderrapante”, argumenta.


Como o morador é responsável pela sua calçada, o resultado varia de acordo com o orçamento de cada um e o grau de conhecimento do padrão definido pelo Município, o que fica claro em áreas nas quais a pista tátil é instalada em alguns trechos, mas sem continuidade. Na opinião de Dórea, falta empenho na fiscalização, que poderia ser feita sem demandar muitas pessoas, com a utilização de drones, por exemplo.


Em nota, a assessoria de comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Salvador afirmou que, desde 2014, “vem intensificando as ações voltadas à manutenção e conservação de passeios por meio da notificação e conscientização dos ocupantes dos imóveis urbanos”. Segundo o texto, ao longo destes oito anos, mais de seis mil imóveis foram atingidos por essas ações.


Questionada sobre a oferta de suporte para que os proprietários façam suas calçadas corretamente, a pasta informou que a pasta disponibiliza um manual de calçadas acessíveis no site.


Pelo observado pela reportagem, o material é direcionado para profissionais da área construtiva. A nota garante que técnicos estão disponíveis na sede, das 8h30 às 17h, para esclarecer dúvidas.

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