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O buzu desgovernado

Atualizado: 24 de mai. de 2023

Neste artigo, o arquiteto e urbanista Luiz Roberto Sobral (Sibié) discute a situação do transporte coletivo de Camaçari, importante cidade da Região Metropolitana de Salvador.


Sempre foi muito utilizada nas mídias de comunicação a analogia entre a política e as artes de modo geral, no melhor estilo “a política imita a arte e a arte imita a política”!


Numa conjuntura de tantas incertezas, incremento das psicoses sociais, perdas irreparáveis de vidas, tendo a pandemia como pano de fundo para convulsionar os hábitos e comportamentos humanos, eis que surgem arautos e hermeneutas de todos os cantos para tentar explicar o que lhes passa pela cabeça e, mais que isto, propor soluções ou alternativas mágicas, quando não milagrosas, para a resolução de todos os problemas!

Voltando à política e o seu espelhamento na arte cinematográfica, sem saber ao certo o porquê, ocorreu-me lembrar de uma série bem antiga projetada nas televisões, denominada A Marca do Zorro!

Nela, velha chanchada mexicana, os capítulos versavam sobre as aventuras de um justiceiro mascarado que agia em nome do bem contra as maldades cometidas por inimigos e bandidos contrários à moral e aos bons costumes da época. Havia um personagem coadjuvante fardado e espadachim, além de trapalhão e balôfo, que representava o aparato de uma milícia institucionalizada!


Em Camaçari, o atual episódio de enfrentamento da crise caótica nos transportes urbanos se encaixa bem na imagem e semelhança da série televisiva aqui lembrada, só que com os papéis invertidos!


O mocinho destemido e personagem principal, talvez por cansaço, desgaste ou inapetência no exercício das suas funções, cede o seu lugar de artista principal ao anti-herói Sargento Garcia, como era denominado o cidadão auxiliar do Zorro e pretenso salvador da pátria!


Como se estivessem iniciando um novo governo, a péssima qualidade dos serviços de transportes ofertados pelo município foi escolhida para ser o centro das atenções da gestão municipal como a ferida que será tratada e curada para o bem da população de Camaçari.


Pelos discursos das autoridades locais, parece haver esquecimento de que a herança maldita da vez foi obra do próprio grupo político que governa desde 2017, seis anos e quatro meses, portanto!


Movidos por razões que a própria razão desconhece, o foco e atenção tardias no quesito transportes traz para o colo dos gestores municipais a função pública mais complexa de diagnóstico, dimensionamento e prognose para o respectivo equacionamento e resolução.


Vale ressaltar que os instrumentos para enfrentamento das políticas e das funções públicas em Camaçari a partir de 2017 não contemplam nenhuma prática de diálogo ou recorrência aos setores comunitários, tanto da sociedade civil quanto das relações institucionais, a começar pelo Legislativo Municipal. A esse respeito, fato exemplar ocorreu na reunião havida em 12 de abril passado, na qual os vereadores foram meramente convidados a tomar conhecimento do plano mirabolante e inquestionável para a nova era dos transportes em Camaçari.


Plateia muda e cabisbaixa, sem ter ao menos sido contemplada com um cardápio de argumentos e subsídios técnicos par justificar e transmitir ao eleitorado o que será do futuro imediato da mobilidade urbana na cidade.


Diante da ausência persistente de interlocução por parte da Prefeitura para com os segmentos diversos da sociedade civil, das instituições públicas e privadas de modo geral, estamos aguardando quem poderá responder sobre: Plano Diretor de Transportes e Trânsito; planos operacionais de circulação e mobilidade; impactos na infraestrutura viária; estudos de demanda de rotas e gráficos dos deslocamentos origem/destino; mapeamento demográfico da sede/orla/zona rural; compatibilidade dos módulos de transportes incluindo características e capacidade dos veículos; qualificação e dimensionamento da frota; articulação intra e intermunicipal; bilhetagem eletrônica; política tarifária contemplando isenções; circuitos intermodais; operações consorciadas com outros entes federativos; integração intermodal; segurança dos passageiros; prospecção comercial de prazos para fornecimento de veículos compatíveis com os especificados no planejamento da frota; recrutamento e capacitação de pessoal; aparato legal e normativo que permita a imprescindível segurança jurídica a todo o sistema, enfim, tantos outros elementos técnicos e descritivos que antecedem qualquer intervenção física no sistema de transportes pré-existente!


Por outro lado e não menos importante, parte inseparável dessas questões reside no planejamento da etapa de transição do atual para o novo sistema, ao que parece limitado apenas à contratação de empresa que irá operar a rede de transportes!


Sem embargo, trata-se de reducionismo intolerável e inadmissível para um município da envergadura de Camaçari, mesmo que seja apenas para criar um fato político, ter grande exposição midiática ou apenas para tirar da inércia o expresso 2024, levando na bagagem os postulantes às eleições do próximo pleito municipal!


As sucessivas e múltiplas inserções nos meios de comunicação até agora giram em torno de um mesmo e desgastado círculo de fogo, no qual foram colocados como vilões os rapidinhos, mototáxis, transportes por aplicativos, entregadores de mercadorias e até as pessoas que se deslocam com veículos próprios nas vias urbanas da sede e orla, as quais brevemente serão atingidas pela “modernidade” das zonas azuis!


Deslocados no tempo e espaço e porventura camaçarienses, talvez com tantas preocupações e em decorrência dos papéis invertidos, o Zorro esteja sentindo-se aliviado e o fanfarrão Sargento Garcia não tenha consciência da enrascada em que se meteu!

Coisas de cinema, sujeitos a um final amargo e infeliz.


Aguardemos os próximos capítulos, lembrando que qualquer semelhança com fatos ou pessoas da vida real é mera coincidência!


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