A chegada do ônibus a Salvador

Atualizado: Set 2

No Brasil, na década de 1920 começaram a rodar ônibus a óleo diesel, e em Salvador eles chegaram neste mesmo período. Por Gina Marocci

Publicado no LEIAMAISba

Trólebus da Cidade Baixa, em 1958

As primeiras décadas do século XX foram marcadas pelo recrudescimento do discurso modernizador e higienista do final do século XIX, que deplorava a herança urbana das cidades coloniais brasileiras e considerava urgente propor reformas que transformassem a imagem dessas cidades, notadamente, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, e tiveram como inspiração a reforma de Haussmann em Paris. Essa parte da nossa história deve ser vista com mais apuro daqui a algumas semanas.

A instalação dos meios de transporte públicos dera um certo ar de modernidade a Salvador, contudo, o desenho tortuoso das ruas, com suas dimensões reduzidas que não permitiam a passagem dos bondes e as condições insalubres de muitos sobrados na Cidade Alta foram justificativas fortes para as intervenções ocorridas nas duas primeiras décadas do século XX.

Neste período, a instalação de rotas eletrificadas para os bondes, a revolução dos veículos motorizados, movidos a gasolina, e com rodas de borracha, exigiam ruas mais largas e calçadas e passeios para separar o fluxo dos pedestres dos carros.

Primeiro chegaram os carros de passeio, particulares, em pequeno número, mas que desenvolviam maior velocidade que os bondes. Os carros de praça se instalaram rapidamente e disputaram o público usuário dos bondes, morosos, desconfortáveis, passíveis de descarrilamento e de paralisação por falta de energia elétrica.

Bondes e carros de praça na Praça Municipal, em 1920

Os ônibus com propulsão mecânica movidos a gasolina já circulavam em algumas cidades, como Berlim, Londres e Paris, na década de 1890. Em 1920, ônibus a óleo diesel circulavam na Alemanha e na Inglaterra.

No Brasil, na década de 1920 começaram a rodar ônibus a óleo diesel, e em Salvador eles chegaram neste mesmo período.

Ônibus em Salvador tinha de receber outro nome, então as marinetes (em homenagem ao italiano Filippo Marinetti, que publicou o primeiro manifesto futurista e esteve no Brasil para proferir várias palestras).

Ônibus semelhante à marinete, em 1950

Apesar de existirem desde o início dos novecentos, os trólebus, ou ônibus elétricos, foram utilizados em larga escala no mundo a partir da década de 1950. Em Salvador, eles rodaram na Cidade Baixa a partir de 1958 e substituíram os bondes elétricos como um sinal de modernização do transporte público.

Os veículos eram de procedência italiana, fabricados pela Fiat-Alfa Romeo-Marelli, e a primeira linha circulou entre o Comércio e o Largo da Madragoa.

Silencioso, macio e não poluente, o trólebus, no entanto, tinha algumas desvantagens como a rigidez das rotas e o custo operacional alto. Por conta da precária manutenção da rede elétrica e dos veículos, bem como do calçamento das vias, a frota de 50 trólebus parou de rodar em 1969. Nessa história, impressionamo-nos com a rapidez que no Brasil abandonamos uma tecnologia por outra sempre em nome da modernização.

Observemos que os trólebus ainda estão em uso em várias cidades no mundo, e no caso específico das linhas da Cidade Baixa não houve mudança da na malha viária, o que nos faz pensar que o sistema poderia ser uma alternativa de transporte público menos poluente e de alta tecnologia para toda a área da Península de Itapagipe até o Bairro do Comércio.

***

Para saber mais

CARVALHO, S. S. de; MATOS, E. A. Mobilidade urbana em Salvador: da cadeira de arruar ao interminável metrô. Revista Transporte y Territorio, n. 7, Universidad de Buenos Aires, 2012

JACQUES, P. B. et all. Salvador, cidade do século XX: a partir das memórias de Pasqualino Romano Magnavita. Salvador: UFBA, RD14_EX02.