Uma ponte sobre o Recôncavo

Atualizado: Jun 14

A ponte não trará nenhum crescimento na ilha, tanto quanto a Rio-Niterói não trouxe a Niterói, nem desafogou o Rio, que cresce na direção oposta. Por Paulo Ormindo

Originalmente publicado no Jornal A Tarde (23/02/10) e também no site do autor.

Um réquiem para Itaparica, ameaçada de ser atropelada pela BR 242, provocou uma reação grotesca e desproporcional do Governo, que compromete sua imagem democrática. A reação foi xenofóbica e preconceituosa ao negar a João Ubaldo direito de opinar por não residir na ilha, nem ser um técnico e sim um intelectual, amante da pobreza e do atraso. Assinei o manifesto de solidariedade ao escritor pela tentativa de desqualificá-lo, em defesa da liberdade de expressão e por outras razões, que vão mais além dos temores de Ubaldo.

A ponte não trará nenhum crescimento na ilha, tanto quanto a Rio-Niterói não trouxe a Niterói, nem desafogou o Rio, que cresce na direção oposta. Itaparica como Niterói será apenas um atalho para pegar a BR 101 e BR 242. Continuará com uma frente marítima de condomínios habitados um mês por ano, como Lauro de Freitas e Camaçari. Mesmo porque, a ponte será uma nova Paralela, engarrafada 24 hs., apesar de suas oito pistas, pois o gargalo está na entrada de Salvador.

Diz-se que a ponte será uma peça de um sistema rodoviário maior. Sim, seus efeitos se sentirão muito além de Itaparica. Trará em seu bojo a marginalização do Recôncavo e ilhas, com seu enorme potencial turístico, ao abandonar estradas vicinais e o transporte hidroviário. Implicará também em aumentar a centralidade de Salvador, em detrimento dos núcleos do interior. Salvador, um município sem produção, dormitório de 80% da população da RMS, terá agora sua área de influencia duplicada, devendo prestar serviços hospitalares, educacionais, habitacionais, de abastecimento, lazer e cultura para uma população duplicada da RMS sem receber por isso um centavo.

Não lamento pela ilha, que será apenas um atalho de passagem, rezo por Salvador, que deverá receber cerca de 50.000 carros e caminhões diários entrando por S. Joaquim cruzando seu Centro Antigo em direção ao Litoral Norte, onde estão as praias mais badaladas e os principais centros de produção da Região Metropolitana de Salvador - RMS, o Copec e a Ford. Imaginem o engarrafamento do Américo Simas, da San Martin, da Contorno e do Iguatemi. Ao contrario de outras cidades, não temos um anel rodoviário de distribuição periférica de trafego. Para o Iguatemi convergem duas estradas, a BR-324 e a Estrada do Coco/Linha Verde. Agora teremos uma terceira, a BR 242. Enquanto em todo o mundo se dificulta a entrada de carros ao centro, nós vamos despejar ali uma estrada de oito pistas.

A realização da obra terá também um impacto enorme sobre a segunda maior baia do mundo. Os estudos de seus impactos demandam a construção de modelos reduzidos e simulações de marés, ventos e descargas de rios e obras complementares para evitar assoriamentos e correntezas. Pequenas obras nos portos de Fortaleza e Recife acabaram com as praias de Iracema e de Olinda. O porto de Suape trouxe ferozes tubarões para a Boa Viagem. Quanto perdeu Recife e perderá Salvador em turismo com um monstrinho que já arranca a 35 m de altura, além de prejudicar a paisagem, a navegação de carga, passageiros e esportiva?

Como se licita um projeto dessa complexidade sem estudos de viabilidade e impactos? Nem eles podem ser feitos em 120 dias, como finge o edital. Ao que tudo indica, é apenas a legitimação de um projeto do “Consorcio” exibido pelo Secretário de Infraestrutura, cujo orçamento inicial é de R$2,6 bilhões. Com esse projeto e o repeteco da Fonte Nova (R$1,61 bi, A Tarde, 30/01) a capacidade de endividamento do Estado fica comprometida por algumas décadas e nós pagando o pato.

Caro Bira Gordo, li com a atenção seu artigo “Radicalismo e desenvolvimento” do ultimo dia 11, por ser V. o mais ilustrado porta-voz da atual administração. Este papo de preservação ambiental versus desenvolvimento e radicalismos são coisas dos anos 70. Não consegui, como outros leitores, me enquadrar em nenhuma de suas categorias – vermelho/comuna, verde de raiva, infantil/lúdico e senil/saudosistas – nem na fantasmagórica oposição carlista. Queremos um conceito e um modelo de desenvolvimento que não seja só concreto, asfalto, carros, fumaça e votos. Há alternativas melhores e mais baratas.