Um teatro a menos a cada quilômetro percorrido. Uma insurgência a cada final de linha.

Atualizado: 9 de set.

O transporte não é um intermediário para o acesso ao direito à cidade, o transporte é o próprio direito à cidade, pois ele não se consiste apenas nos fixos, como também nos fluxos. Por Tássio Santos Silva

Um dos artigos premiados no I Concurso de Textos promovido pelo ObMob Salvador.
Evento no Espaço Cultural Alagados. Fonte: SecultBA (https://www.flickr.com/photos/secultba/)

O modo de apropriação, ocupação e leitura do espaço urbano permite afirmar que Salvador é composta por uma convergência de pluralidades, de contradições, paradoxos e sequelas do colonialismo, além de territórios, vidas, culturas e insurgências de um decolonialismo, manifestando-se em várias cidades dentro de uma só, caso se levem em considerações parâmetros geográficos e, ainda, dentro dessas várias cidades se manifestam outras cidades, caso se levem em considerações parâmetros subjetivos dos seus habitantes. E uma coisa não está, necessariamente, dissociada da outra.


As cidades pretas dentro de Salvador, não coincidentemente, são as ditas cidades “precárias”, reduzidas e resumidas no discurso oficial e acadêmico a déficit de habitação, serviços e equipamentos públicos (leiam-se direitos), como saneamento básico, escolas e universidades públicas, postos de saúde, equipamentos culturais institucionais, como teatros, museus, galerias de artes, cinemas, entre outros. Esses últimos, em especial, os teatros, serão objetos de reflexões e análises desse texto, visto que acessar esses serviços, muitas vezes - mas não somente -, depende do sistema de transporte e mobilidade da população. Uma vez que eles se localizam, majoritariamente e historicamente, no Centro Tradicional da Cidade e Orla Atlântica, é possível afirmar que, a cada quilômetro em direção às margens, aos bairros populares, às “quebradas”, os teatros vão ficando mais distantes, sumindo…


Segundo Fróes e Silva (2021), diante dos dados de acesso ao teatro do projeto Qualidade do Ambiente Urbano de Salvador - QUALISalvador e ao georreferenciamento dos teatros na cidade, como mostra a figura 1, os/as soteropolitanos/as que afirmaram frequentar tal equipamento cultural revelam o caráter seletivo dessa prática cultural e expõem o resultado de uma política discriminatória de centralização desse espaços institucionais em determinados territórios. Enquanto na Área Urbana Consolidada foram identificados 26 teatros, no Subúrbio Ferroviário, por exemplo, foram identificados apenas 3 teatros. Desse número, 2 são espaços comunitários (Teatro É ao Quadrado - Alto do Cabrito; Espaço Cultural Alagados - Uruguai), frutos da resistência, união, protesto e identidade dos territórios.

Figura 1 - Frequência aos teatros em Salvador. Fonte: FRÓES, SILVA (2022).

Ainda, de acordo com a pesquisa citada, os bairros que mais pessoas responderam ter o hábito de ir ao teatro no tempo livre são Graça (48%), Rio Vermelho (41,6%), Stiep (40%), Barra (39,29%), Costa Azul (36,90%), Pituba (34,69%), Centro (32%), Federação (30,91%), Canela (30,88%) e Vitória (30,51%). Sendo assim, as cidades brancas, os bairros dos/as moradores/as classe média, apresentam os maiores indicadores de acesso ao teatro, por aglomerarem uma série de fatores que permitem tal feito. Entre eles, o fator mobilidade tem um papel essencial, bem como o fator renda, que está, intrinsecamente, associada ao transporte - visto como produto e não como direito. Afinal, além do preço dos ingressos, uma vez que Salvador não tem, como política pública, subsídio de ingressos de espetáculos a título de incentivo à manutenção da “saúde econômica” dos teatros, o preço da tarifa do transporte na capital soteropolitana é um dos mais caros do Brasil, ainda que isso não reflita na qualidade do serviço prestado - sendo comum atrasos, congestionamentos e ausência de linhas de ônibus que visem a garantia dos lazeres e acesso aos equipamentos culturais institucionais (FRÓES, SILVA, 2022; CARIBÉ, 2021).


É dessa maneira que se torna impossível a inclusão social, interações criativas, construções e criação de horizontes entre os/as vários/as moradores/as das várias cidades no espaço cultural - que deve ser visto e sentido como um caldeirão de possibilidades, relações e palco-agente para as várias manifestações que caracterizam as vidas, os territórios, os corações, as culturas e a(s) cidade(s). É impossibilitado, logo, o direito à cidade, enquanto presente - acesso ao que já existe - e futuro - a participação social para o que pode existir.


Ainda outra barreira no impedimento aos teatros, que deve ser levado em consideração, é o fator social: o pertencimento e reconhecimento, visto que parcela significativa das manifestações populares que acontecem no cotidiano dos bairros populares não são contempladas por esses espaços (FRÓES, SILVA, 2022). Entretanto, como onde existe territorialidade existem culturas e vice-versa, nas quebradas existem alternativas/estratégias (leiam-se insurgências) criativas de resistências e existências que fazem jus ao bordão que ecoam em tais territórios: “nós por nós”.


Dentre as insurgências, destacam-se as batalhas de MCs enquanto espaços de diálogos, performances, mobilizações e organização política, uma vez que os problemas dos territórios, da(s) cidade(s) e da conjuntura política do país estão presentes nos versos e interações carregados de denúncias. Boa parte das rodas de rimas - como a Batalha do Zumbi, em Tancredo Neves, a Batalha da Matacity, em Mata Escura, a Batalha Platacity, em Plataforma, a Batalha Seme'arte, em Pero Vaz, entre outras, acontecem no final de linha dos territórios - pela fácil localização, por ser um ponto de chegada para os/as participantes e apreciadores do “rolê” e pela facilidade do momento do retorno para suas casas ou territórios de origem.


Nessas idas e retornos, trânsito e tráfego, os/as mesmos/as MCs - como estratégia para o acesso ao transporte - recitam suas poesias, rimas e versos nos “busão”, e também como estratégia para demonstração das artes e performances e arrecadar dinheiro. Assim, o transporte, mais uma vez, não é um intermediário para o acesso ao direito à cidade, o transporte é o próprio direito à cidade, pois ele não se consiste apenas nos fixos, como também nos fluxos.


Assegurar a acessibilidade, participação, plenitude, justiça e que todos os espaços sejam de todos/as, bem como o fomento, incentivo, apoio e não hierarquização das manifestações populares, insurgentes, entre outras manifestações culturais, são maneiras de integrar todas as (multipli)cidades de Salvador, respeitando e garantindo sua riqueza (sua diversidade), e, consequentemente, a democracia.


 

Referências:


FRÓES, F.; SILVA, T. Salvador: Guias de ruas e revelações. In: SANTOS, E.; BENEVIDES, T. et al. (Orgs.). QUALISalvador: Qualidade do Ambiente Urbano na Cidade da Bahia. EDUFBA: Salvador, 2022. p. 371-396.


CARIBÉ, D. Salvador, mobilidade urbana e desigualdades. Revista Papo de Galo, n. 14. São Paulo, 2021. p. 66-71.