"Ponte é negociata", diz João Ubaldo

Incita-se a revolta da população da ilha contra o ferryboat e por isso muitos são a favor da ponte, porque não imaginam o que essa construção vai acarretar. Por Jornal da Metrópole

Originalmente publicado no Jornal da Metrópole, nº 83 (31/01/2010), e disponível no blog Manifesto Itaparica.

Jornal da Metrópole – O senhor concorda que as prefeituras e a comunidade da Ilha de Itaparica estão em segundo plano na discussão sobre o projeto da ponte?

João Ubaldo Ribeiro – Não interessa ao Estado comunicar nada aos municípios. A ilha nunca foi ouvida, escutada ou cheirada, sobretudo quando a dividiram em dois municípios de maneira estapafúrdia para criar duas câmaras de vereadores. Uma coisa que não tinha necessidade. Não será agora diferente.


JM – Por que o senhor é contra a construção da ponte?

JUR – Itaparica será adicionada à área urbana de Salvador e não suburbana, por causa do encurtamento da distância. Para quem estiver na Barra, a depender de onde sairá a ponte, estará mais perto da ilha do que de Pernambués. O que acontecerá com os terrenos baldios daqui dando sopa? Invasão até na minha porta. Isso acontece em São Paulo, por que não aconteceria aqui? Quando o sujeito tiver como ir da Lapa até Itaparica, por exemplo, e tudo isso sem nenhum preparo, será um desastre.


JM – A ponte não seria uma alternativa ao sistema precário do ferryboat?

JUR – O ferryboat de Salvador é um sistema falido, mas não por uma causa inerente a ele. O ferry funciona no mundo inteiro, como na Escandinávia e no Canal da Mancha, em condições extremamente adversas e com um inverno rigoroso. Mas esse não é nosso caso. O ferryboat dá certo em toda parte, só não funciona na Bahia, porque não dá dinheiro graúdo. Qual é a inferência lógica para quem está habituado à realidade nacional? Ele não dá dinheiro. A ponte dá. Com R$ 150 milhões, daria para colocar três ferries do tipo Ivete Sangalo e o negócio bem administrado não ocasionaria filas. Até no Maranhão, que é muito mais pobre que a Bahia, o sistema funciona bem.


JM – Por que há desinteresse do Estado em melhorar o sistema ferryboat?

JUR – Inicialmente, para valorizar a especulação imobiliária no litoral norte por causa dos resorts, empreendimentos e as propriedades de lá. Então, ficou muito mais difícil para o baiano ter seu lazer na ilha do que no litoral norte. Agora, não interessa recuperar o ferryboat ou apenas equipá-lo decentemente, porque é pouco dinheiro para as propinas, para os superfaturamentos, para a goela dos que vivem no Brasil nas tetas do Estado.


JM – Alguns moradores da ilha são a favor da ponte por causa dos enormes problemas e desconforto do sistema ferryboat...

JUR – Incita-se a revolta da população da ilha contra o ferryboat e por isso muitos são a favor da ponte, porque não imaginam o que essa construção vai acarretar.


JM – Para o senhor, qual é o verdadeiro interesse do Estado em construir a ponte?

JUR – É só para faturar essa ponte, inventando que se está planejando de acordo com as características e a vocação do lugar. Não está planejando coisa nenhuma, já vimos esse filme 200 mil vezes. É para empulhar, tomar dinheiro e para fazer que diabo de negociata que eu já não sei mais...