Para a Ilha de Itaparica, ponte é um embuste

É um acinte contra o povo da Ilha de Itaparica esse embuste de Ponte. A ilha está totalmente desassistida: segurança pública é zero. Por Ana Muniz

Publicado originalmente no Terra Magazine (28/01/2010), acessível apenas pelo WayBack Machine.

Nos últimos dias a imprensa foi assediada com pautas sobre a (famigerada) Ponte que pretende-se construir ligando Salvador à Ilha de Itaparica. Vale dizer que esse sonho pertence ao povo itaparicano, e apenas a ele. Não foi sonho sonhado por estrangeiros, estranhos ao local. Entenda como quiser.

Em primeiro lugar é bom dizer que, sendo o sistema ferry boat eficiente, a Ponte é perfeitamente dispensável. Além disso, estando as estradas que seguem para Sto. Antônio de Jesus/Nazaré em perfeitas condições para tráfego, oferecendo segurança aos motoristas, o trajeto entre Salvador e a Ilha leva cerca de 3 horas que, convenhamos, é bem menos que 5, 6 ou mais horas de espera na fila.

Perceba que até o momento nada foi dito ou perguntado sobre a Ponte João das Botas, popularmente conhecida como Ponte do Funil, com mais de 40 anos e que, com toda a certeza não tem estrutura para suportar um aumento no tráfego de veículos. A construção da Ponte também implicará no alargamento da estrada que corta a Ilha ao longo da qual já existe um intenso comércio, casas de moradia e propriedades várias. A menos que se faça uma nova estrada (lembre-se de que a Ilha pertence a uma APA - Área de Preservação Ambiental) os proprietários terão de ser indenizados conforme valor venal dos imóvéis, em alguns casos muito superior ao valor de mercado.

É um acinte contra o povo da Ilha de Itaparica esse embuste de Ponte. A ilha está totalmente desassistida: segurança pública é zero. A polícia civil tem apenas duas viaturas, a nova para pessoal administrativo e a velha para os policiais. O "hotel", segundo os próprios policiais está com 100% de ocupação. Na sede há um policiamento me engana que eu gosto, nas localidade é cada um por si. Depois das 21 horas, os postos de combustível fecham. São muito visados pelos assaltantes.

Em Cacha Pregos a falta de iluminação pública favorece a ação de assaltantes contra moradores e veranistas. Eles assaltam para comprar drogas . O mesmo acontece em Berlinque, Aratuba, e outras localidades onde o tráfico de drogas se estabeleceu. Mas paga-se taxa de iluminação pública junto com o IPTU de ruas sem calçamento, arruamento, sinalização, limpeza e etc.

O lixo fedorento permanece por dias ao longo da estrada. No final de 2009 e início do ano o lixo do dia 30/12/2009 só foi recolhido, em parte, no dia 4/01/2010. O mau cheiro invade as casas deixando as pessoas nauseadas. A prefeitura não tem sequer caminhões compactadores. O lixo é recolhido em caçambas ou retro escavadeiras de onde os sacos vão caindo ao longo do trajeto até o aterro sanitário localizado, pasme, dentro da reserva ecológica de Baiacu, primeiro núcleo de povoamento da Ilha. E a administração municipal vende a idéia da Ponte como o caminho para Shangrilá, ou Xanadu.

A Embasa interrompe o fornecimento de água para as localidades menores para favorecer um hotel de bandeira francesa e a localidade de Penha, segundo comentário corrente e recorrente na Ilha. Em 12 de janeiro, o fornecimento foi interrompido às 9 horas da manhã, sendo restabelecido só às 2 horas da madrugada do dia 13. Paga-se inclusive por rede de esgoto inexistente. Não se encontra um funcionário que dê uma justificada procedente. Já chegaram ao absurdo de dizer que o fornecimento é interrompido para economizar... Energia elétrica (?).

Quem regula o transporte nas vans e topics no Terminal de Bom Despacho é o humor dos cooperados, e não a Agerba. Alguns chegam a cobrar 10 reais por passageiros que lá desembarcam no último ferry (o preço normal são 4 reais). Após esse horário quem não tem carro próprio não se locomove dentro da ilha.

Nos fins de semana a ante sala do inferno fica completa com a chegada dos carros equipados com sons que não deixam moradores dormir com músicas sem qualidade em decibéis acima do permitido e tolerado pelo ouvido humano. A quem reclamar?

Nos primeiros dias do mês, o tempo de espera nas filas de auto-atendimento da única agência do BB é de 60 minutos, em média. Até os arrecifes seculares, do tempo de Paraguaçu e do cacique Taparica, sabem que no verão a população flutuante aumenta, menos os administradores e fornecedores de serviços públicos.

Caso ainda exista na imprensa comprometimento com a verdade, dê um pulinho na Ilha. De uma ponta a outra, da Costa a Contra-Costa e veja o estado em que se encontra a Ilha que o Estado esqueceu. As necessidades da Ilha de Itaparica são imediatas, urgentes, pra ontem.

Você pode estar se perguntando, se a Ilha está nesse horror, por que você está aí? Porque é um direito meu e de todos os nascidos e criados na Ilha de Itaparica e que querem apenas serem ouvidos e respeitados. Vale lembrar que foi na Ilha de Itaparica que o povo brasileiro começou a ser formado, não foi João Ubaldo?

Primeiro, respeito, e a paz virá como consequência.