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O gigante dos pés de barro

Atualizado: 17 de abr.

A solução para a RMS não são obras faraônicas de fachadas em plena recessão, como a ponte Salvador-Itaparica, a Linha Viva, e um minhocão. Por Paulo Ormindo de Azevedo


Publicado no jornal A Tarde e no site pessoal do autor.


Algum economista já calculou o que representa os alagamentos e deslizamento de encostas para a economia de Salvador? Os políticos não discutem o despreparo de Salvador para as chuvas, que a cada ano é mais grave devido ao modelo de uso do solo e obras públicas inadequadas, como se esses desastres fossem inevitáveis. Discute-se o aquecimento global, o uso do filtro solar e o IPTU Verde, mas não o desastre ambiental de Salvador com esses acidentes que provocam mortes, destruição de bairros e a paralização da cidade todas as vezes que chove.


Os aguaceiros em Salvador afetam todas suas funções: a habitação com a destruição de centenas de casas, o patrimônio histórico com seu literal “tombamento”, a mobilidade com o alagamento das avenidas, a saúde pública com as mortes, a poluição das praias e os surtos de dengue, chikungunya e zika, a educação pela interrupção das aulas, o comercio com o fechamento das lojas, a segurança pelos assaltos nos engarrafamentos e o turismo.

O sistema de macrodrenagem de Salvador é uma ficção. Sem uma política federal, estadual e metropolitana de construção de represas, investimentos em drenagem e desocupação de áreas de risco, agravada pela diminuição das áreas verdes, impermeabilização de 100% dos lotes para construção de garagens, deficiente recolhimento de lixo e a sucateada rede de aguas pluviais o problema só tende a piorar. Recobrir rios é um tiro no pé, pois eles deixam de ser dragáveis. João Henrique fez isso na Vasco da Gama e no Imbui e estas áreas estão sendo alagadas.


É preocupante que se vá repetir esse erro com o recobrimento dos rios Lucaia e leito sul do Camaragipe, que correm nos canteiros da Juracy Magalhães Jr. e ACM, para construção de um BRT que faz a mesma ligação do metrô: Lapa-Iguatemi. Estes dois rios drenam uma imensa bacia que se estende do Rio Vermelho até a Cidade Jardim, Candeal, Polêmica, Iguatemi e Itaigara. O assoreamento dessas galerias em um par de anos vai criar um problema insolúvel para a cidade. Uma via exclusiva de ônibus decentes (BRS) resolveria o problema com um custo ínfimo. Cada faixa dessas substitui cerca de 50 de carros de passeio. Inteligente seria aplicar esses bilhões em obras de drenagem livrando a cidade do flagelo anual e consagrando a administração que as realizasse.


Paris, Recife e Cachoeira cortadas por grandes rios eram alagadas anualmente até meados do século passado. Hoje, graças a grandes obras hidráulicas, não sofrem mais esses efeitos. Salvador não é cortada por nenhum grande rio, é cercada pelo mar em três lados e possui grandes desníveis que facilitam a drenagem. Até áreas próximas do mar, como a Calçada, o Comercio, a Barra e a Pituba estão sendo alagadas. O recapeamento que foi feito em toda a cidade pela atual administração está sendo destruído pelos alagamentos. O que se está fazendo é o emergencial contra os deslizamentos de terra, mas nada pela drenagem. A solução para a RMS não são obras faraônicas de fachadas em plena recessão, como a ponte Salvador-Itaparica, a Linha Viva, e um minhocão que sepultará rios e áreas verdes senão ações estruturais. Urge repensar a RMS de forma integrada e não tópica e terceirizada.

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