(Foto: Paula Fróes )Arqueólogos acompanham demolições nas estações de trem que darão lugar ao VLT

Equipe atua para preservar vestígios da história de Salvador. Por Laiz Menezes*


Publicado no Correio*

A passarela da antiga estação de trem de Paripe, no subúrbio ferroviário, não existe mais. Nesta terça-feira (07), as cerca de 120 toneladas de concreto foram demolidas como parte das obras do VLT - Veículo Leve de Transporte. O processo foi todo acompanhado por uma equipe de arqueólogos que têm atuado no registro e preservação dos bens materiais e imateriais que podem surgir no canteiro de obras, já que o VLT irá substituir um modal que foi inaugurado em 1860. O Sistema de Trens do Subúrbio tinha um trajeto total de 13,5 quilômetros entre os terminais da Calçada e de Paripe.

Ao todo, eram dez estações que foram desativadas em fevereiro. Ao menos duas delas serão preservadas como patrimônios históricos, a própria Estação da Calçada e a Casa Amarela da Estação de Periperi.

A preocupação em ter arqueólogos nos canteiros de obras das áreas antigas de Salvador se justifica. Em 2019, por exemplo, durante a prospecção do solo para a reforma da Avenida Sete de Setembro, esses profissionais encontraram mais de seis mil artefatos históricos, dentre faianças (cerâmicas) portuguesas do século XVI, cerâmicas de produção local e importação, moedas, cachimbos, contas de colares, ossos e garrafas de vidro de produção industrial e artesanal.

A coordenadora científica da equipe de arqueologia que atua nas obras do VLT, Jeanne Dias, diz que durante a obra do VLT já foram encontrados materiais do século XIX nas estruturas da antiga rotunda [estrutura associada ao primeiro momento ferroviário, na metade do século XIX], na Estação Calçada. “Coletamos fragmentos de materiais móveis, como vestígios de garrafas e fragmentos de cerâmica, mas ainda precisamos levar para análise”, acrescenta.

Jeanne explica que a presença dos profissionais garante a preservação do patrimônio arqueológico que é evidenciado antes e durante a execução da obra. Ainda segundo ela, os arqueólogos avaliam “tudo de contexto de interesse arqueológico que é localizado em subsuperfície e acima da cota zero, dentro da etapa de avaliação de impacto, que precede a execução da obra, como vestígios estruturais, de morfologia espacial e dos prédios, pisos e até elementos arquitetônicos que ainda conseguimos observar são delimitados dentro de uma área”, complementa.

Quando a obra começa, os arqueólogos já possuem uma base para saber o quanto a demolição pode impactar nos vestígios arqueológicos. “O arqueólogo vai atuar para salvaguardar as informações sobre esse bem material ou imaterial que foi encontrado, porque a própria Constituição diz que temos o dever de levar essas informações às próximas gerações. Então, a gente coleta essas informações da melhor forma através da escrita arqueológica e cultura material, que é todo e qualquer objeto produzido pela ação humana com intuito de atender alguma necessidade. Nós resgatamos as informações de ocupações pretéritas, do uso e relevância desse espaço para sociedades anteriores, para então trazer isso para as sociedades atuais, para que elas possam entender um pouco mais sobre o processo de desenvolvimento humano e socioespacial”, detalha a coordenadora.

Preservação

Ao lado da na antiga Estação da Calçada, inaugurada em 1860, será erguida uma parada com projeto arquitetônico moderno. A ideia é que essa nova estrutura e o prédio do século XIX, lado a lado, simbolizem a convivência entre a tradição e o contemporâneo. Já a Casa Amarela da Estação de Periperi será mantida com suas características originais. A demolição no local afeta apenas a passarela, a plataformas e o acesso.

O historiador Rafael Dantas afirma que o prédio da Estação Calçada é uma construção com ferros importados da Inglaterra e que a estrutura tem uma grande importância para o patrimônio cultural de Salvador, por isso, precisa ser preservada em sua integralidade. “É um prédio que possui mais de 100 anos e que ainda está quase perfeito no seu interior”, afirma.

Rafael acrescenta que nos primórdios da cidade, a área coberta pelo Sistema de Trens do Subúrbio era ocupada por portugueses e indígenas. Por ser próxima ao mar, também era um local onde as pessoas descartavam lixo. “Os resíduos das sociedades passadas são ricos para entendermos como era o contexto da cidade de Salvador nos séculos passados. Friso que todas as estações e prédios devem ser preservados e a própria importância da equipe de arqueologia atesta tudo isso”, opinou o pesquisador.

Modal contemporâneo

O VLT, que vai substituir o trem do subúrbio, terá 28 equipamentos para fazer o transporte de passageiros na capital. O modelo foi construído na sede da empresa BYD, na China. Durante apresentação do projeto no país asiático, em abril deste ano, o governador da Bahia, Rui Costa, afirmou que o estado dava um passo largo para a modernização do transporte com a implementação do VLT. “Esse veículo vai substituir um trem da década de 40, e que não apresentava mais condições de conforto nem de velocidade”, afirmou o governador na ocasião, destacando que o novo modelo é mais sustentável.

O investimento para a construção do VLT é de R$ 2,5 bilhões e deverá atender às mais atuais demandas de mobilidade, especialmente dos moradores do subúrbio ferroviário. Em 03 de novembro, a Skyrail Bahia, empresa responsável pela implantação e operação do VLT do subúrbio, recebeu a Licença Ambiental junto ao Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (IPHAN). O Alvará de Demolição já havia sido concedido à concessionária em junho pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Sedur).

“O VLT trará conforto e segurança aos usuários, sem perder de vista a memória do trem no subúrbio ferroviário de Salvador. O transporte sobre trilhos faz parte da história da Bahia, e isso será preservado”, afirma Alexandre Barbosa, diretor técnico da Skyrail Bahia.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo