Especial Olhar Futuro: Melhorar acesso ao transporte é urgente

Atualizado: 11 de dez. de 2021

Entre ônibus, metrô e a pé, 30% da população de Salvador tem preferido a última opção para se deslocar na capital baiana. Por Bruno Luiz Santos


Publicado no A Tarde

Foto: Adilton Venegeroles - Jornal A Tarde

Entre ônibus, metrô e a pé, 30% da população de Salvador tem preferido a última opção para se deslocar na capital baiana. O dado da versão 2017 da pesquisa Origem/Destino, da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), revela uma realidade que chama atenção na mobilidade urbana da cidade: parte considerável dos soteropolitanos não consegue, simplesmente, ter acesso ao transporte público.

“O sistema de transporte público é caro para a maior parte da cidade. As pessoas se deslocam a pé porque não conseguem pagar mesmo”, explica o professor José Lázaro Santos, da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Ampliar o acesso do cidadão aos modais é um dos desafios que o próximo prefeito de Salvador terá que enfrentar na área da mobilidade, segundo especialistas ouvidos por A TARDE. O tema abre o projeto “Olhar Futuro”, pelo qual, nas próximas semanas, veículos do Grupo A TARDE discutirão as principais demandas que estão na agenda do município.


Acessibilidade


Santos avalia que outros problemas em relação à acessibilidade são a falta de informações fáceis sobre o sistema de transporte público para o usuário, pontos de ônibus sem estrutura, falta de segurança nos veículos, iluminação pública deficitária, passeios inadequados, entre outros.


De acordo com o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Salvador (PlanMob), 56% das calçadas da cidade precisam de readequação, por exemplo. Problemas que mostram que é difícil ser tanto passageiro quanto pedestre na capital baiana. “É preciso promover um espaço mais humanizado, com melhor infraestrutura, segurança. A falta de acessibilidade faz com que as pessoas percam oportunidades”, lamenta.

Os fatores mencionados acima também contribuem na hora do antigo usuário do transporte público decidir se locomover a pé ou passar a utilizar outra forma, como carro e moto, favorecendo o aumento na frota de veículos na cidade. Do ponto de vista do trânsito, isso significa vias mais ocupadas, maior dificuldade de tráfego e crescimento na quantidade de pontos de engarrafamento.


Mas os reflexos disso se estendem para outros aspectos, como o aumento da emissão de gases poluentes na atmosfera e, por consequência, na piora da qualidade do ar. Aí entra o binômio saúde/gasto público: o ar ruim pode levar a uma escalada nos casos de internações por problemas respiratórios, o que onera os cofres públicos por custos maiores com atendimento hospitalar.


“A falta de qualidade histórica do transporte público causa a opção de compra do carro, da moto. Essa motorização é fruto da falta de investimento histórica no transporte público ou na queda de qualidade. Lugares em que o transporte chega depois do surgimento de localidades Uma cidade na qual as pessoas não conseguem se localizar bem, ler o espaço. Tudo isso são dificuldades”, complementa Santos.

Integração


Salvador cresceu nos últimos anos nas opções de transporte público regularizados. Aos ônibus e táxis, juntaram-se modalidades como metrô, mototáxi e aplicativos de transporte.


Um avanço que proporcionou a qualificação do serviço e o desenvolvimento, ainda considerado incipiente, de uma rede de transporte público, marcada pela multimodalidade, como existe em países desenvolvidos, O desafio, entretanto, é integrá-la, levando-se conta as particularidades de cada ponto da cidade, para que a população possa se deslocar por ela de maneira mais fácil. É o que avalia Gilcinea Barbosa, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU/BA).


“Falta pensar em soluções para a micro acessibilidade, deslocamento entre bairros vizinhos e articulações possíveis para diminuição do transporte individual. As dificuldades de circulação das pessoas atrapalham o desenvolvimento, diminuem a produtividade, além de evidenciar condições diferenciadas para territórios distintos em função de sua localização na cidade. Fazer com que as pessoas percorram menos distâncias, gastem menor tempo até o trabalho, as compras, o lazer é outro desafio importante”, explica.

BRT e VLT


Consideradas as duas principais futuras obras de mobilidade da cidade, o BRT e o VLT também trarão desafios ao futuro gestor. O arquiteto e urbanista Carlos Alberto Querino Silva diz que o primeiro tem um “equívoco grave”, enquanto o novo projeto do VLT, que substitui os trens do Subúrbio pelo monotrilho, não deveria ser feito nesses moldes.


“A via expressa para automóveis no BRT vai apenas transferir o engarrafamento de um lugar X para Y. E o monotrilho não substitui o VLT, que a gente chama de bonde moderno...Vai ficar faltando o VLT Salvador”, avalia.

Ainda segundo ela, o BRT, construído pela prefeitura de Salvador, não é tão eficiente e é limitado para ampliação de demanda. Além disso, tem custo/benefício alto. Já sobre o VLT do Subúrbio, projeto do governo estadual, ela o considera importante para modernizar o sistema de transporte da região, deficitário para a população. No entanto, substitui-lo pelo monotrilho é um “absurdo”, em sua visão.


“Será um absurdo ele ser implantado na trajetória da linha férrea, interferindo ainda mais na paisagem urbana do Subúrbio Ferroviário. Deve-se estudar um melhor trajeto para introduzir mais pessoas no acesso ao transporte urbano coletivo”, defende.

Coordenador do Movimento Ver de Trem, contrário ao monotrilho, Gilson Vieira, vê dois grandes problemas no projeto. Um é o preço da passagem previsto para o novo modal, que deve acompanhar o do metrô, como já anunciado pelo secretário estadual da Casa Civil, Bruno Dauster - atualmente, o valor é de R$ 3,70, enquanto o usuário paga R$ 0,50 para andar no trem. O outro é a interrupção do funcionamento do serviço atual quando começarem as obras do VLT.


“As interferências urbanísticas em qualquer região têm que contar com participação popular e respeito às características locais, observando sua história, sua cultura. Isso está sendo violado. O impacto urbanístico ser elevado. Vai fechar o visual da Baía. O custo vai ser mais elevado. Se fosse recuperar a estrutura existente, fosse um trem ou VLT ferroviário, o custo seria mais baixo”, afirma.

Para o secretário de Mobilidade, Fábio Mota, as críticas em relação ao BRT são de quem “não leu o projeto.” “O BRT é calcado num tripé: vem resolver a questão da mobilidade quando faz as vias exclusivas de maneira geral. Reduzir os alagamentos naquela região. E, por fim, vem priorizar o transporte público. Para você priorizar o transporte público, você precisa fazer vias exclusivas. Não tem como fazer só vias exclusivas para ônibus”, defende.


Procurada, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado (Sedur) não comentou o assunto até o fechamento desta matéria.


Sustentabilidade


Uma preocupação de Mota também é com a sustentabilidade do sistema de transporte com o advento dos aplicativos, cada vez mais usados pela população.


“Os aplicativos são um avanço, mas nossa preocupação é como inseri-los sem travar a cidade”, afirma. Em 28 de agosto deste ano, a Câmara Municipal de Vereadores aprovou um projeto de lei que regulamenta o serviço na cidade. O texto, enviado à Casa pelo Executivo, previa limitação na quantidade de carros que poderiam rodar no município cadastrados nas plataformas. No entanto, a norma foi derrubada pelos vereadores.

José Lázaro Santos vê vantagens nos aplicativos, que oferecem preços mais baixos para o consumidor e também um serviço de melhor qualidade. Entretanto, externa uma preocupação. “Pode sinalizar mais carros rodando na rua por causa de gente que precisa trabalhar. È mais uma alternativa, mas tem impactos no sistema, na diminuição de passageiros nos ônibus, nos táxis. Em outros países, foi usado para carona compartilhada, virou uma segunda renda pras pessoas. Aqui, para muitas pessoas, é a primeira renda”, pondera.


Outra questão apontada como desafio em relação ao transporte público é como manter sua sustentabilidade econômica. As empresas de ônibus têm enfrentado uma redução na quantidade de passageiros com o surgimento do metrô e a redução na quantidade de linhas, além de ter nos mototaxistas e motoristas de aplicativo um concorrente.


“É preciso se pensar em novas formas de financiamento do transporte público, que não seja só a tarifa. A tarifa não vai financiar sozinha”, acredita Santos. “A sustentabilidade do sistema será alcançada com o aumento do número de usuários que pode ser alcançado pela substituição dos transportes individuais por um transporte de massa de boa qualidade, seguro e eficiente”, opina Gilcinéa.

Do ponto de vista da sustentabilidade para o meio ambiente, o titular da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência, André Fraga, defende que o sistema de transporte elétrico deve ser cada vez mais implementado para reduzir as emissões de gases poluentes. De acordo com ele, 60% desse lançamento é causado atualmente na capital baiana pela frota de veículos. “O problema é que a mobilidade elétrica é mais cara. O Brasil precisa, principalmente a nível federal, fomentar esse transporte”, afirma.


Ele pondera, no entanto, que a mudança nos motores usados nos ônibus que fazem o transporte público já trouxeram um ganho na qualidade do ar respirado pelos soteropolitanos. Um estudo feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que a troca na motorização ajuda a evitar 10 mortes por ano na cidade e faz com que cada morada ganhe três dias na expectativa de vida. “Imagina se a gente muda essa matriz para a matriz elétrica”, conjectura.


Legado


Para Fábio Mota, no entanto, a cidade avançou nos últimos quase oito anos em mobilidade. Ele destaca as medidas para integração metrô-ônibus, a confecção do PlanMob e o início do desenvolvido de uma rede de transporte público, com integração entre os modais, como legados da gestão ACM Neto (DEM).


“Nós projetamos, com a chegada do metrô, a reestruturação do sistema de transporte público. Criamos o bilhete único, que permite que uma pessoa pegue o mesmo ônibus. Integramos todas as linhas de ônibus com o metrô, o que possibilita que a pessoa pegue o ônibus.Temos a melhor e mais barata integração do país”, enumera.

Construído com participação popular, o PlanMob propõe uma série de ações que devem ser feitas para melhorar, até 2049, a mobilidade urbana em Salvador. O estudo pode guiar o novo prefeito na estruturação das iniciativas que precisam ser realizadas na área. Entre as propostas, estão: requalificação das calçadas em eixos viários de acesso ao transporte coletivo; melhoria da microacessibilidade, com novas escadarias, planos inclinados, requalificação de escadarias, elevadores, teleféricos, entre outros; programa de gestão pública da mobilidade a pé para melhorar segurança, iluminação das ruas, entre outros fatores; integração da rede cicloviária e da intermodalidade; criação de um programa que coloque a bicicleta como transporte cotidiano; e consolidação operacional da rede de linhas, com racionalização de linhas, melhor sinalização e melhora dos sistemas de informação. O plano ainda prevê R$ 1,594 bilhão em intervenções prioritárias até 2025.


Apesar dos avanços, Mota admite que continuar a rede de integração com os modais futuros é um grande desafio que o próximo prefeito precisará enfrentar. “Vai ser preciso trabalhar para integrar com o táxi, com os aplicativos, mototaxista, aumentar a quantidade de modais com a rede que já está criada”, vislumbra.


OLHAR DO ESPECIALISTA

Por Paulo Ormindo de Azevedo, arquiteto e urbanista


Mobilidade e uso do solo são inseparáveis, o que não acontece em Salvador. O último ensaio de planejamento é dos anos 70, o Plandurb. A isto se soma a desarticulação das ações do Estado e da Prefeitura. A crise de mobilidade é reflexo desses dois fatores. Uma das questões mais graves da mobilidade é a concentração dos dois principais acessos a Salvador – a BR-324 e Paralela – e a distribuição do tráfego urbano no Iguatemi sem nenhuma rótula, nem rodoanel. Isto irá se agravar se a ponte SSA-ITA sair. O metrô de superfície e o BRT aéreo, duas soluções ultrapassadas, repetem e agravam o mesmo erro.


Outro problema grave é a desarticulação do sistema de transporte da Cidade Baixa e Subúrbio com a Cidade Alta. O monotrilho, espertamente rebatizado de VLT, é um sistema incompatível com outros modais e terá um impacto terrível no Comércio. O carro continua sendo o ópio do povo e a bandeira das autoridades, vide Via Expressa e o minhocão da Av. ACM. A tendência mundial são os modais individuais, como a bike elétrica, a patinete e o monociclo.


Salvador não tem passeios, nem muito menos ciclovias. Humanizar a cidade é favorecer o pedestre e o ciclista, não o carro.