Após mais de 160 anos, Trem do Subúrbio encerra atividades; usuários se despedem

Publicado no Correio* (13/02/2021)



Foto: Flickr/Reprodução/Deputado Rolemberg

Depois de mais de 160 anos de serviço, o Trem do Subúrbio vai ser aposentado nessa segunda-feira (15), e os cerca de seis mil usuários dos trens de Salvador têm até este sábado, às 19h30, para se despedir deles. Pela última vez, os velhos trens vão correr os 13,5 km de trilhos que ligam Paripe e Calçada e fazem parada em dez estações em bairros do Subúrbio Ferroviário.


Fim de uma era para a chegada de outra. O governo do estado vai dar início à nova etapa das obras do Veículo Leve de Transporte (VLT). Entre os usuários, uns defendem a mudança e focam nos benefícios, e outros lamentam o aumento de preços e o apagamento de tanta história.


Jacira Silva, de 68 anos, desenvolveu uma relação especial com o trem. Professora de História, ela leva, todos os anos, seus alunos para conhecerem o modal, enquanto conta a história ferroviária de Salvador. Na sexta (12), foi dia de fazer a última viagem, desta vez sem os alunos, por conta da pandemia, apenas ao lado do filho.


Para a professora, o VLT poderia ser implantado sem a desativação dos trens. “Acabar com o trem é acabar com a história, deixar ela somente para os livros. Ver isso tudo ruir de repente dá um nó na garganta. Eu não acredito que o progresso signifique destruição da história”, diz ela, emocionada.


Para a despedida, o plano foi parar em cada estação e relembrar a história de cada uma delas. “Hoje eu vim fazer a minha última viagem. Quero perpetuar essa história na minha memória e poder continuar passando ela adiante, mantendo ela viva de alguma forma”, conclui Jacira.


Quem também vai sentir falta do serviço é a comerciante Rose Freitas, de 33 anos. Ela mora no Lobato e utiliza o trem todos os dias, para chegar na estação da Calçada, onde tem uma barraquinha de frutas. Ela diz que o novo custo da passagem vai pesar no bolso e teme que, com a desativação, as vendas entrem em queda.


“Agora vai aumentar muito o nosso gasto. Eu gastava um real por dia, vou gastar quase nove. Vai pesar muito, até por conta do comércio, que é forte por causa do ponto na porta da estação. Aqui é passagem mesmo de todo mundo. Vou tentar uma ou duas semanas aqui, para ver como fica. Todos os ambulantes aqui estão muito desanimados, preocupados”, diz Rose.


Segundo a Companhia de Transportes da Bahia (CTB), a passagem custa R$ 0,50 (inteira) e R$ 0,25 (meia), com viagens a cada 40 ou 45 minutos. Os trens operam das 6h às 20h, e a passagem é gratuita para maiores de 60 anos. Com a mudança, os passageiros terão que passar a desembolsar R$ 4,20 por viagem.


Uma pesquisa realizada em 2019 pelo Bákó Escritório Público de Engenharia e Arquitetura da Ufba, Ministério Público estadual e Tec&Mob, apontou que 42% dos usuários do trem ganhavam, à época da pesquisa, menos que um quarto do salário mínimo e estavam abaixo da linha da pobreza.


O perfil traçado apontou ainda que 90% dos usuários eram negros, 80% chegavam à estação do trem a pé e cerca de 70% afirmaram que deixarão de utilizar a linha ou reduzirão o uso após a mudança do modal.


Devido a esse cenário, o Ministério Público estadual, por meio da promotora de Justiça Hortênsia Pinho, ajuizou na quinta-feira (11) uma petição para solicitar que a Justiça impeça a paralisação do trem do subúrbio marcada para a próxima segunda-feira (15). Segundo a promotora de Justiça, a paralisação deve ocorrer de forma escalonada e deve ser divulgada para a população com prazo mínimo de 30 dias, possibilitando uma prévia adaptação dos usuários que não têm condições de arcar com a alteração de valor. “A divulgação ocorreu apenas dez dias antes da paralisação. Um total desrespeito com aqueles que dependem do modal para se locomover”, destacou Hortênsia Pinho.


Mas há também quem concorde com a desativação dos trens. Para a aposentada Marizete Araújo, de 65 anos, o VLT vai valorizar a região mais carente da cidade. “Vai ser ótimo para o Subúrbio, para a periferia. A gente precisa de melhorias, de modernidade. É um desrespeito com o ser humano isso aqui ainda estar funcionando, porque toda hora quebra, é um perigo. Já passou da hora de mudar isso aqui”, opina Marizete, que diz evitar pegar o trem, preferindo outros meios de transporte.