A reestruturação que deu certo

Atualizado: 26 de nov.

Quem sabe um dia o passageiro do transporte coletivo soteropolitano consiga finalmente realizar a tal integração dos sonhos, prometida há tantos anos. Por Vitor Paes Bastos

Um dos artigos premiados no I Concurso de Textos promovido pelo ObMob Salvador.
Rótula da Feirinha - bairro de Cajazeiras

Os anos entre 2013 e 2015 marcaram a mobilidade urbana de Salvador devido às grandes mudanças que ocorreram em todo o sistema, principalmente se tratando da chegada de um novo modal de transporte, o metrô, e do consórcio Integra, que viria substituir as antigas empresas de ônibus que rodavam na capital baiana. As consequências de tantas novidades apareceram em 2016 e 2017, quando a Prefeitura e o Governo do Estado anunciaram uma reestruturação das linhas do transporte coletivo soteropolitano, sob o argumento de que alguns atendimentos já estavam sendo considerados ultrapassados após a chegada do metrô e da integração entre modais no dia-a-dia da cidade.


Durante esses dois anos, diversas linhas foram extintas ou substituídas por outras. Um dos locais mais afetados foi a região de Cajazeiras: linhas que partiam principalmente para a Lapa, Ribeira, Comércio e Pituba deixaram de atender aos milhares de moradores. A alternativa imposta pela Secretaria Municipal de Mobilidade (SEMOB), responsável pelo transporte coletivo da capital, foi os usuários das linhas extintas utilizarem os atendimentos que partem para a Estação Pirajá, principal terminal de integração utilizado nos bairros.


A grande questão que se coloca é: até onde essa mudança de roteiro oferecida pela SEMOB era benéfica? Observando os bairros Fazenda Grande 1 e 2, que contavam com a linha 1429 (Lapa), desativada em razão do metrô, a solução "simples" era que os moradores utilizassem a linha 1333 (Estação Pirajá) e fizessem a integração com o metrô para seguir para o terminal no centro. Essa mesma linha 1333, meses depois, passou a atender o bairro de Boca da Mata, agora adentrando em quatro localidades durante seu percurso: Quadra C e Quadra F (Fazenda Grande 1), Chiclete (Fazenda Grande 2) e Boca da Mata. Além disso, quem utiliza a linha nas localidades ainda percorre um trajeto que faz um desvio na região da Rótula da Feirinha antes de seguir para a Estação Pirajá, além de utilizar a região do Couto Maia como parte do trajeto de ida e volta, não sendo a opção mais rápida para chegar à BR-324 e seguir o resto da viagem. O tempo estimado de viagem para quem utiliza a linha 1333, seja do terminal para os bairros ou o contrário, é de 1 hora nos melhores horários. Nos piores, pode chegar a ter 30 minutos a mais de duração. Vale lembrar que o tempo de integração entre modais é de, no máximo, 2 horas e que a 1333 se trata de uma linha alimentadora, ou seja, a maior parte de quem a utiliza ainda vai fazer uso de outro modal ou linha. Isso se conseguir entrar sem perder a integração.


Esse caso retratado fala do drama de apenas quatro localidades dentro de um bairro na capital baiana, mas pode muito bem representar o atendimento de transporte de diversos outros. Isso só prova o quanto a reestruturação de 2016 a 2017 foi equivocada e pouco planejada em diversos pontos, não sendo aleatório que, desde 2018, vem-se tentando consertar as inúmeras falhas, porém as melhorias vêm em ritmo bem lento, isso quando vêm. Uma coisa precisa ser ressaltada: nesse período houve vários acertos da Secretaria, com a criação de novos atendimentos. As linhas do Terminal Acesso Norte, que partem para a Ribeira, São Joaquim e Barroquinha, foram tão bem pensadas que, hoje em dia, possuem grande importância na locomoção de passageiros que vêm de toda a cidade e até da região metropolitana. No entanto, as linhas problemáticas ainda existem e carregam milhares de pessoas caoticamente todos os dias e não podem ser apagadas da memória apenas por conta das que deram certo.


A SEMOB deveria tirar uma semana da agenda para estudar intensamente as linhas da cidade e os atendimentos que são feitos em cada bairro, principalmente dos que mais recebem reclamações sobre transporte, e assim planejar uma nova reestruturação para corrigir, quem sabe de uma vez, o erro dos anos anteriores. Isso precisa ser feito o quanto antes, porque há previsão de Salvador receber diversos investimentos no transporte coletivo, seja pela vinda de novos modais ou pela extensão dos atendimentos dos já existentes. Uma nova reestruturação terá de acontecer mais uma vez para organizar e adaptar as linhas de ônibus a fim de andarem em harmonia com as diversas mudanças que estão por vir. Quem sabe um dia o passageiro do transporte coletivo soteropolitano consiga finalmente realizar a tal integração dos sonhos, prometida há tantos anos.