A ponte Salvador-Itaparica é inviável economicamente

A alternativa de construção da ponte Salvador-Itaparica, por sua vez, não seria uma solução eficaz, porque traria o inconveniente de transferir o congestionamento de tráfego da BR-324 para os arredores da ponte, tanto em Salvador quanto em Itaparica. Por Fernando Alcoforado

Jornal A Tarde, 16/07/2013

O Estado da Bahia enfrenta no momento inúmeros problemas, destacando-se, entre eles, os seguintes: 1) a inclemência da seca que afeta, sobretudo, o semiárido; 2) a pobreza endêmica que atinge a maior parte da população rural; e 3) o congestionamento da BR-324 e dos acessos e saídas rodoviárias das cidades de Salvador e Feira de Santana.

Sobre a inclemência da seca, uma das maiores autoridades em recursos hídricos da Bahia, o engenheiro Manoel Bomfim, já falecido, escreveu o artigo "A seca no Estado da Bahia", no qual questiona o fato de o governo da Bahia não ter adotado nenhuma medida preventiva para amenizar seus efeitos quando era de conhecimento geral que a seca que se instalou nos sertões da Bahia era prevista de longas datas pelos estudos do Instituto de Atividades Espaciais (IAE) de São José dos Campos.

De acordo com os números divulgados pela imprensa, mais de 500 mil cabeças de gado já morreram no semiárido baiano por causa da seca e, nos laticínios, a quebra foi em torno de 70%. Segundo Manoel Bomfim, o governo da Bahia foi leniente ao não desenvolver um programa específico e determinado de construção de uma estrutura hídrica na Bahia.

Sobre a pobreza endêmica que atinge a maior parte da população rural da Bahia, esta situação é demonstrada no estudo de Sonia P. Ribeiro "Contornos e políticas: pobreza rural na Bahia" (século XXI: temas estratégicos. Salvador: Seplantec, 2003). Neste estudo, fica evidenciada a falácia da propaganda oficial que afirma estar a Bahia em franco desenvolvimento, apesar de ser a quinta unidade federativa do Brasil em termos de miséria.

A miséria da Bahia só ganha, pela ordem, para a do Maranhão, Piauí, Ceará e Alagoas. Sonia Ribeiro deixa bastante evidenciada a ausência de políticas públicas voltadas para a superação do problema e capazes de eliminar a carência de assistência à saúde e educação e a precariedade do saneamento básico, bem como os índices elevados de mortalidade infantil e analfabetismo.

Sobre o congestionamento da BR-324 (Rodovia Salvador-Feira de Santana) e dos acessos e saídas rodoviários das cidades de Salvador e Feira de Santana, uma de suas soluções seria a ampliação da capacidade de tráfego da rodovia e dos acessos rodoviários a Salvador e Feira de Santana e a outra seria a construção da ponte Salvador-Itaparica. A alternativa rodoviária é mais econômica do que qualquer outro modal de transporte até 120 quilômetros de extensão.

Se, por exemplo, for duplicada a BR-324, o custo do investimento seria de R$ 296.629.200 (R$ 2.471.910/km). A alternativa de construção da ponte Salvador-Itaparica, por sua vez, não seria uma solução eficaz, porque traria o inconveniente de transferir o congestionamento de tráfego da BR-324 para os arredores da ponte, tanto em Salvador quanto em Itaparica.

A extensão da ponte Salvador-Itaparica (11,7 quilômetros ao ser concluída) seria praticamente equivalente à extensão da ponte Rio-Niterói (13,3 quilômetros). No entanto, o custo por quilômetro orçado da ponte Salvador-Itaparica (R$ 7,4 bilhões/11,7 quilômetros = R$ 632.478.632/quilômetro) é 68% superior ao da ponte Rio-Niterói (R$ 5 bilhões em valores atualizados/13,3 quilômetros = R$ 375.939.849/quilômetro), na qual o autor destas linhas atuou como engenheiro consultor. Constata-se, portanto, que a alternativa de duplicação da BR-324 (R$ 2.471.910 por quilômetro) é muito mais econômica do que a construção da ponte Salvador-Itaparica (R$ 632.478.632 por quilômetro), o que inviabiliza economicamente esta última alternativa.

Na solução dos três problemas acima descritos, fica evidenciada a incompetência do governo do Estado, que não foi capaz de delinear políticas públicas para sua superação. Diante da incompetência do governo do Estado na solução dos problemas acima citados e, sobretudo, da tentativa de impor a todo o custo a construção da ponte Salvador-Itaparica, inviável economicamente, não resta à sociedade civil outra ação a não ser combater veementemente sua implementação acionando, inclusive, o Ministério Público.

* Engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional/Universidade de Barcelona