À beira do colapso: transporte metropolitano enfrenta cenário de crise

Hoje, 60% do valor arrecadado com a tarifa vai para o combustível. Por Emilly Tifanny Oliveira*


Publicado no Correio*

O primeiro trimestre de 2022 foi marcado por uma série de crises no setor de transporte metropolitano, com paralisações e protestos; além do aumento dos combustíveis. Nesta quarta-feira (25), o Sindicato dos Rodoviários da Região Metropolitana de Salvador (Sindmetro) voltou a se manifestar em prol de melhorias para a categoria. Desta vez, os rodoviários se reuniram na estação aeroporto, em uma manifestação pelo reajuste de 11% no salário. As empresas concederam 6%, percentual que segundo o Sindmetro, corresponde só à primeira etapa das negociações deste ano.


"A manifestação de hoje é para que a categoria não precise parar, pois estamos em campanha salarial há muito tempo. Fechamos a campanha em duas etapas: a primeira de 6% e a segunda de 5%. Já está terminando o prazo e o governo não se manifestou, porque esse outro reajuste viria de um auxílio dos governos federal ou estadual. O federal não saiu ainda e o estado não se manifesta", diz Walter Ferreira, presidente do sindicato.


De acordo com ele, esta foi a primeira de uma série de manifestações e paralisações planejadas para acontecer até que o aumento salarial completo entre em vigor. Nesta quinta-feira (26), a categoria se reunirá em assembleia na sede do sindicato, para decidir se os rodoviários do transporte metropolitano entrarão em greve ou não.


Colapso

Para Walter Ferreira, a crise no transporte metropolitano começou há oito anos e se agravou em janeiro de 2022, quando a Viação Sol de Abrantes (VSA) foi fechada e deixou os rodoviários da empresa desempregados. Somado a isto, estão os aumentos nos preços dos combustíveis e a má divisão dos valores arrecadados por meio da tarifa do transporte.

“Do valor pago pelos passageiros, 65% vai para o metrô e 35% é dos empresários. Aí entra combustível, salário, ticket [alimentação] e pneu. O combo óleo diesel, trabalhador e pneu equivalia de 25% a 35% da renda. Hoje, o óleo diesel, sozinho, está tomando 60% do orçamento. Assim as empresas de transporte vão acabar”, teme o presidente.

Os rodoviários entendem que a tarifa ideal para amenizar a crise seria de R$ 8, mas afirmam que a população não teria condições de arcar com esse valor. “O combustível está muito caro e as empresas não estão tendo condições de operar”, acrescenta o representante do sindicato.


Durante a pandemia, oito empresas de transporte metropolitano suspenderam as atividades por problemas financeiros e não voltaram a rodar, sendo quatro - Expresso Linha Verde, ATP Transportes, VCA e Castur - que circulavam entre Salvador e a Região Metropolitana. No total, a RMS tinha 11 companhias de transporte.


O Sindmetro também aponta a gestão estadual como a principal culpada pela crise que afeta as empresas de ônibus da Região Metropolitana, atingindo diretamente os rodoviários e a população.


Em nota, A Agência Reguladora de Transportes da Bahia (Agerba) disse que está atuando como mediadora das negociações entre o sindicato dos empresários e o sindicato dos rodoviários metropolitanos “com o intuito de que as categorias cheguem a um acordo, alinhando as demandas dos trabalhadores com a capacidade das empresas em atenderem aos pleitos”, diz a nota.


Transtorno para a população


Em março, a BTM deixou de circular por três dias e outras seis empresas que fazem o transporte metropolitano entre Salvador e a RMS realizaram uma paralisação de 24 horas. Desta vez, outras mobilizações dos rodoviários ameaçam a rotina dos trabalhadores.


Jucilene Silva, 53, pega o transporte todos os dias para chegar à Praia de Ipitanga, em Lauro de Freitas, onde trabalha. Caso ocorresse uma greve, ela teria que optar pelo transporte clandestino para estar no local. “Eu teria que pegar topic. Quando passam no ponto [as topics] estão sempre cheias”, conta.


O transporte no valor de R$ 8 também seria inviável para ela. “O salário da gente não acompanha. Muitas pessoas ficariam desempregadas, porque nem todo patrão tem condições de dar esse transporte para o empregado”, diz Jucilene.


Para Eveni Silva, 36, que mora em Vida Nova, além da crise que seria enfrentar uma paralisação, a infraestrutura do transporte público é outro fator agravante, mas que, diferente da suspensão do transporte, ocorre todos os dias.


“A gente pega carro velho todos os dias. Paralisando ou não, tudo é ruim. O certo é a população apoiar a greve, para ver se muda alguma coisa”, afirma.

Problema corriqueiro


O coordenador do Observatório de Mobilidade de Salvador (ObMob), Daniel Caribé, aponta que a crise nos transportes públicos é um problema nacional, mas que tem responsabilidade compartilhada pelos três níveis de governo: prefeituras, governos estaduais e governo federal. A crise financeira das empresas de transporte também segue um roteiro, primeiro cortam linhas, demitem rodoviários e, em seguida, deixam os ônibus sucateados.


“Chegamos a este ponto por conta de uma visão mercadológica da mobilidade urbana, que não é considerada direito social. Os governos devem colocar o transporte coletivo nos seus orçamentos, subsidiando a atividade e o deslocamento de segmentos vulneráveis da população, garantindo um serviço de qualidade, seguro e com tarifas módicas. No que diz respeito à Região Metropolitana de Salvador ainda tem um agravante, que é a falta de coordenação”, explica Daniel.


Além das questões financeiras, ainda existe o problema da infraestrutura do transporte. “Os perigos são inúmeros. A vida das pessoas fica em risco, o que só aumenta o receio de usar o transporte coletivo, que já sofre com problemas de segurança pública e falta de eficiência”, alerta Daniel Caribé.


Como solução, o ideal, segundo o coordenador da ObMob, é investir em políticas públicas para ampliar os meios de manutenção do transporte metropolitano. Hoje, o principal fundo desse custeio é a tarifa.


“Uma das medidas urgentes é a criação de um fundo metropolitano de mobilidade urbana, com recursos de todos os municípios e do governo do estado, que deve remunerar os prestadores dos serviços por quilômetro rodado e não mais pela tarifa arrecadada. A tarifa arrecadada deve ir para esse fundo, que será complementado pelos orçamentos dos entes envolvidos”, aponta Caribé.


*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo